Prometheus

terça-feira, 27 de janeiro de 2009 às 03:03
Tudo é muito melhor do que parece ser,
às vezes.
Penso isso agora, olhando do alto
De minha vigésima primeira primavera
E sinto, no fundo sinto que
Das doces, é a mais
Doce.

Vinte e um anos andando sem pressa por entre vinte e uma primaveras doces e amargas: salgadas: indoloresinodorasinsípidas: sem cor, sem cheiro, sem gosto. Horas um remédio ruim, conhaque vagabundo, horas fluído vital escorrendo pelas veias que explodem radiantes sem explicação.

Vinte e um anos correndo em direção qualquer que o vento sopre ou cante pra mim nos ouvidos e no coração, me enchendo de esperanças as vezes tão boas, esperanças. Vinte e um anos aprendendo que quem tem um sonho não dança.

Vidas inteiras em um só dia, meses vazios, noites longas, dias mortos. Vinte e um anos para chegar a conclusão de que a vida não tem conclusão alguma nem nunca terá. Para saber em segredo e em silêncio que no fundo do peito ainda bate meu coração de prometheus abandonado pelos céus, coração que só quer bem, só quer amor; coração castigado e despedaçado por amar errado, 21 anos de coração titânico se despedaçando e regenerando-se, exausto de bater errado e ser tantas vezes apunhalado e vazar lento por essas linhas tortas tão carregadas da mais pura essência de eu mesmo.

Paro, retomo o fôlego, refaço os curativos, abro as janelas e balanço a poeira do meu tapete e acendo um incenso indiano que varre a casa junto com o vento, ventando por aí.

Ritual

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009 às 01:41
Como num ritual, acordei e dei bom dia as flores (que já conversavam e cresciam cada vez mais), pensei que talvez devesse pintar as paredes, troquei palavras sobre o luar com o sax triste, acendi um incenso doce pra relembrar, acendi as luzes da varanda e fiquei ali só observando o céu, vendo as nuvens tão cheias de algo que eu não conseguia entender. Um pouco confuso, tanta nuvem e nenhuma estrela pra me guiar, não dava nem pra se encontrar nem pra se perder, era só nuvem, era cinza, um céu tão cheio de nada, vazio. Continuei com meu ritual, o som que vinha de dentro – da vitrola e do coração, eram versos de esperança de Paul e John.

And when the broken hearted people
Living in the world agree,
There will be an answer, let it be.

And when the night is cloudy,
There is still a light that shines on me,
Shine on until tomorrow, let it be.
..let it be.

Quando tudo que eu esperava era apenas alguns versos bonitos de esperança, senti um vento soprando mais forte, vinha do sul.
Antes desse vento os gerânios não tinham tanta cor, as borboletas andavam meio quietas naquela calmaria.
Mas aí veio esse vento do sul, um vento leve e livre, que depois virou uma ventania, mas uma ventania que era bonita de se olhar dali da varanda. Daí essa ventania era na verdade um ciclone, e eu ali parado, admirando esse vento leve do sul crescer cada vez mais. Todas aquelas nuvens sem forma e sem cor sendo varridas, uma por uma pra bem longe, pra depois do horizonte. Foi aí que voltaram então as estrelas e o brilho delas, infinitas, e aí a última nuvem que ainda restava no céu foi embora e fiquei ali, eu, o vento, as estrelas infinitas e a lua minguante sorrindo.

Foi aí que tudo por aqui andou florescendo e que os gerânios então se mostraram cada vez mais azuis.
O vento me dizia coisas bonitas ao pé do ouvido, grandes como o amor, a vida, a liberdade, as vontades, a sintonia, as freqüências.
Tinha medo de que talvez ele fosse soprar pra outro lugar e todas aquelas nuvens voltassem. Mas esse vento era como um bater de asas de libélula. Era um vento livre, incontrolável. E quando eu chegava a sentir essa coisa que nem chegava a ser medo direito, ele vibrava numa freqüência que eu reconhecia, e então eu tive certeza outra vez.

Como num ritual então, escancarei as janelas pra ter certeza de que eu pudesse ainda muitas outras vezes ver as estrelas infinitas e sentir esse vento que envolvia e me fazia ver e sentir tudo de novo, sentir que as coisas livres voam juntas na mesma freqüência e não se perdem, e não importam as massas de ar quente nem massas de ar frio nem qualquer outra coisa, sempre vai haver a sintonia que só quem entende o vento tem.

A partir desse dia eu continuo com meu ritual, mas agora com uma flor magnolia que ele trouxe ao meu jardim, com cores a mais nas paredes, com as tochas sempre acesas (sempre), com a música e a arte sempre voando entre as quatro paredes e saindo e voltando pela janela, e quando eu vejo que as nuvens vão embora e eu vejo outra vez o brilho da lua, sei que aquele vento que me fez sentir e ver tudo de novo está sempre por aqui ventando e me trazendo coisas doces e intensas ao mesmo tempo, trazendo coisas que me fazem acreditar que tudo sempre ainda pode ser outra vez – e eu agora tenho um cata-vento na janela.

Cinza

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009 às 20:20
Foi queimando, queimando, queimando, cada vez mais, até que do fogo fez-se cinza, e da cinza, mais cinza, cinza, cinza, e continuava queimando. era fogo e cinza, cada vez mais, queimava por paixão, crescia pelo tamanho do atordoamento que ela causava. Os cabelos balançavam, o olho brilhando da lua, o cheiro no ar. O olho brilhava tanto e o cheiro era tão intenso, que ele estava atordoado, não que não visse mais nada, mas não tirava os olhos daquela paz, não queria sair daquela paz. Era um clima luz de velas, vinho na mesa, segredos, descobrimentos, fascinação, dúvidas, eu te cantava coisas bonitas, você me dizia com a voz terna que pensava em coisas como desistir e eu em coisas como eu-quero-acreditar-em-tudo-outra-vez. Mas aí chegou a conta acendeu a luz apagou a vela a vela caiu a toalha pegou fogo chegaram os bombeiros apagaram o fogo todo mundo saiu correndo o cigarro continuou queimando e era fogo fogo fogo fogo e mais fogo e cinza cinza cinza que só ia aumentando aí, de repente, um leve toque de dedos no lugar certo, bateram a cinza. Desmoronou. Talvez caísse sozinha, talvez não, continuasse queimando pra sempre, quem sabe? Talvez tudo, talvez nada.

Ponto de Equilíbrio

às 01:34
Sempre imaginei que não houvesse um ponto de equilíbrio. Pensei que tudo devia ser um extremo, que pras coisas funcionarem, elas precisassem de mais do mesmo. Por exemplo, pensei que fogo só prestava com mais fogo, com gasolina, nitroglicerina, explosões, fogo multiplicado ao infinito. Mas penso que extremos talvez explodam juntos, aumentem as coisas, e no fundo, se acrescentam, se complementam.

Aí eu descobri que existem Estranhos-parecidos. É como um punhado de terra estrangeira que é jogada em outras terras. Continua terra, o mesmo elemento. Mas ainda assim, não exatamente igual. Áries com ascendente em Gêmeos, extremos, fogo e ar. Como Capricórnio e Peixes. A lua assistindo tudo lá de cima. Por um lado transborda, pelo outro contém. É uma loucura controlada, mas ainda sim, loucura.
Aí esses estranho-parecidos se encontraram e a rádio entrou na freqüência, Moraes Moreira foi quem cantou os primeiros versos:

..Escute essa canção
Que é prá tocar no rádio
No rádio do seu coração
Você me sintoniza
E a gente então se liga
Nessa estação...

E há quem pense que o vento apaga uma fogueira. Mas há a brasa, que é o mais importante, continua acesa, como o incenso de patchouli queimando transbordando sua essência, e, quando aquela labareda sobe e queima mais do que devia, sem controle, lá vem o vento leve, livre, solto, o ponto de equilíbrio – fundamental, você.

To the Dragonfly

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009 às 17:28
Para ler ao som de:
My Brightest Diamond - Dragonfly


Uma libélula. Livre, decidida - como um dragão -, estava voando por aí, hora pousando em uma flor vermelha, hora numa flor azul, logo depois em uma branca, o que importa é que ela nunca vai pousar em uma flor específica, digamos, não existe uma flor que atrai libélulas, mas ao contrário, a libélula atrai algumas flores especiais pra perto, faz florescer, crescer, aquele bater de asas tem uma vibração que faz a flor, especialmente as azuis, quererem crescer, ser além, querer ser uma flor especial pra libélula.

Isso pode até acontecer, espero que possa, sim, mas é improvável, as libélulas são improváveis, e essa improbabilidade, essa imprevisibilidade, é o que faz a libélula esse dragão único, de quatro asas, de dois pares de vogais, sempre algo duplo, algo a mais.
Ela sabe ser azul e vermelho ao mesmo tempo, ela é sol e lua, quente e frio, gosto e desgosto, fogo e água.

Gosto de ver ela solta por aí, ruflando suas asinhas rumo a alguma coisa que com certeza é especial, essa liberdade é linda, tanta essência, tanta intensidade, e me sinto muitas vezes como o único que a entende, o único que sabe ver essa beleza rara. E talvez por isso as vezes eu pense que eu deveria fechar todas as janelas pra deixar ela aqui dentro, voando dentro de mim, nos cabelos, nos pensamentos. Mas no fundo eu sei, ela não seria mais libélula, não seria mais quem ela é, nem eu mais saberia admirá-la assim. Por isso é que eu deixo a janela aberta sempre com o jardim bem cuidado, gerânios azuis; vermelhos; azaléias e lírios do campo – e rezo, se é que pode se dizer assim, melhor seria: e canto.

Canto coisas que ela gosta de ouvir. E espero assim, cantando, que ela volte sempre aqui, onde está sempre florescendo – e ela nem sabe que se floresce, é por ela que está sempre aqui.

Talvez tudo, Talvez nada.

às 09:21
*É pra você que eu escrevo. Pra você que tem a lua no olhar.

Primeiro eu preciso ainda de alguns goles gelados pra poder continuar aqui e te dizer tudo que eu andava acumulando aqui dentro. Tudo que há um tempo não passava pela garganta seca, que as mãos trêmulas já não encontravam no escuro, que já não escreviam mais por simplesmente ter deixado um pouco de acreditar.

É isso, acreditar, lembra? Tudo outra vez, cada vez mais, acreditar, talvez enlouquecer, me achar e me perder.
Acontece que eu andei pensando tanto em flores nos últimos dias. E quando eu olhava pra todos os lados e via flores e mais flores, vi uma flor mais flor que a própria flor, tão ali no jardim, sendo flor sem saber.

Magnólia, no fundo eu sabia. Flor tão mulher. És flor complexa, belle, toujours. Uma flor inesperada por assim dizer. Mas no começo, pensei que talvez fosse margarida (isso não é algo ruim), e aí, foi mais..bem mais. Eu reguei sem querer/querendo. Quando me dei conta você já não cabia mais ali naquele vasinho de margarida. Quis um lugar só seu, especial. Eu quis isso. E então você se mostrou magnólia.

Se mostrou arte, poesia, rara. E então eu te plantei junto de mim, junto aos gerânios, no mesmo vaso, pintado por acaso de azul e vermelho.
Hoje sonhei com eles, com o gerânio e a magnólia. Eles entrelaçaram as raízes como se dissessem:

- Não me solta.
- Não te solto.

Soltos, livres – E o mundo a sua espera...

Alguém me dá um GPS

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009 às 00:13
Já não sei mais se venho procurando as coisas certas –talvez eu nunca tenha sabido tais coisas-, ou talvez eu não queira procurar coisa alguma. Por que é que a gente tem sempre que estar procurando alguma coisa?

Eu nunca quis procurar um caminho porque procurar –necessariamente- significa não ter, ou pior, estar perdido. E por mais que eu já tenha ou tenham feito várias vezes me sentido perdido, eu sempre me achei aqui dentro de mim.

É sempre assim, as vezes o mundo vira as placas pro lugar errado, te joga numa rua sem saída bem quando você pensa que achou um caminho que leva praquela estrada cheia de flores na beira da estrada. Mas eu sempre tive o costume de me sentir em casa em qualquer lugar, comigo, eu tinha a mim mesmo naquele momento, e tinha a lua também, e isso bastava. Sempre foi tempo de voltar, me achar sem pressa, eu olhava pra cima e a lua ainda tava lá, o cruzeiro do sul, as três marias, Vênus e até a estrela que eu dei um apelido de gente, sempre tive coisas pra me guiar dentro de mim.

Mas aí me disseram que a gente nunca tem tudo o que quer.
E eu me pergunto, será que é assim mesmo? Eu tenho tudo o que eu quero hoje, se não, eu tenho a vontade (muitas). E ter vontade muda tudo. O mundo pode não ter solução, se essa for a vontade das pessoas. Mas eu digo que tem solução, falta vontade, querer de verdade, acreditar na vida, afinal, ela ta do nosso lado, ela não é o que eu ouvi dizer esses dias no ônibus.
A vida não é dura, a vida não é difícil, não é chata nem injusta.
Não há coisas a se procurar em vão, sem saber.

A vida é o que a gente deseja. Sem desejo não se encontra nada, nunca.
Eu desejo paz. Eu desejo amor.
Eu desejo que as coisas floresçam.
Eu desejo que a lua continue brilhando nos teus olhos.
Eu desejo mais palavras. Mais abraços. Mais vida, cada vez mais vida.
Pra 2009 eu quero além de tudo, muita vontade de vida.

E eu hei de encontrar, quem sabe na próxima esquina?

Espontaneidade

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009 às 03:32
A minha espontaneidade tem mais ou menos a minha idade.
Foi tempo o suficiente para que eu me apaixonasse por ela.
À nossa volta, tudo era previsível e disciplinado e ordeiro e meio sem-graça.
A espontaneidade era histérica, sentia na carne as dores, as angústias, a energia concentrada de todos nós.
Explodia em demonstrações de descaso e de insubordinação - o que me fascinava, eu, em toda a minha repressão.
A espontaneidade era redentora.
Nunca tomei a espontaneidade para mim.
Ficava de longe, quieto, assistindo e tentando aprender, esperando minha vez de fazer aquilo tudo. Precisou que passasse algum tempo.
Descobri que a vida é sua, nossa, platéia. Não se teme quem paga o ingresso.
E todo mundo ainda o faz.
Hoje tenho em mim muito do que a assisti fazer. Hoje, tenho como certo que a espontaneidade era quem sabia das coisas. Hoje sei que estão todos atrás do que ela era. Valeu a pena.
Enquanto tentavam aprende-la, eu aprendi a imitá-la.

Ser coisa nenhuma qualquer.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009 às 01:10

Um raio, uma explosão, fusão, uma dessas fórmulas químicas que mudam o mundo ou qualquer coisa cheia de energia assim. Como quem não esperada nada numa segunda-feira, sai de manhã pra comprar o jornal, comprar o pão, arrumar a casa e termina louco de amor em paris. Coisas inesperadas, coisas explosivas, cheias de energia. É esse tipo de coisa que eu ando esperando. Não uma coisa qualquer planejada, não um encontro no shopping, sim um encontro na madrugada, na rua, sentindo frio, noite triste, tomando vinho, com alguns desencontros, e de repente, o raio, a mudança, a energia, uma coisa qualquer que dói mais fundo, essas coisas que mudam a vida.
Eu to esperando um trovão, tempestade que me deixe surdo, sem sentido algum vagando por aí citando e gritando palavras aos céus agradecendo pela vida e bebendo a água da chuva como se ali naquela tempestade estivesse toda a vida, todo o êxtase, toda a intensidade, toda chance de amor.
Quero antes a vida, transbordar as palavras, transbordar tudo que eu sinto, como num alagamento, um dilúvio, tsunami inexplicável que varre tudo, quero antes morrer de amor e de vida. Quero respirar com pouco ar, entrar em desespero, passar fome, sentir frio, ser preso, fugir, estourar as grades, correr sem destino, quero antes a vida, loucura, amor.
Quero ser outra vez.