sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

...

- Desejo passar o resto da minha vida com você.

- Não, uma vida com você nunca será resto.

- Fabrício Carpinejar

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Descobri que.

'É preciso pouca luz para achar o segredo dos teus olhos.'

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Ao som qualquer de uma lua crescente no céu..

'...Talvez um voltasse, talvez o outro fosse. Talvez um viajasse, talvez outro fugisse. Talvez trocassem cartas, telefonemas noturnos, dominicais, cristais e contas por sedex (...) talvez ficassem curados, ao mesmo tempo ou não. Talvez algum partisse, outro ficasse. Talvez um perdesse peso, o outro ficasse cego. Talvez não se vissem nunca mais, com olhos daqui pelo menos, talvez enlouquecessem de amor e mudassem um para a cidade do outro, ou viajassem junto para Paris (...) talvez um se matasse, o outro negativasse. Seqüestrados por um OVNI, mortos por bala perdida, quem sabe. Talvez tudo, talvez nada.'

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O quinto gim.

..Foi no quinto gim que o telefone tocou. 5 toques não atendidos que soaram como 5 tiros à queima roupa na noite daquela sexta-feira que mal começava. Lembro que começava a chover. Daquela noite, sei dizer que 1 minuto e vinte e dois segundos é o tempo que o semáforo do outro lado da rua demorava a fechar. Pra abrir? Eu não sei, antes de 10 segundos sei que meu pensamento viajou quilômetros e eu perdi a conta, perdi a conta dos gins, das horas, das chamadas não atendidas. Mas é outono lá fora e vou me desfolhando por aqui, deixando nas linhas os últimos traços de vida. Escrevo como que pra criar raízes mais fortes, como se podasse os galhinhos fracos para nascerem cheios de vida na primavera. Chove lá fora. Chove aqui dentro. Vou regando. Já velho, um botão de flor tomando raiz por aqui, refloresce. Azul. Coloquei meu próprio nome nele.. na verdade, não tive escolha.. é só minha necessidade constante de sempre reflorescer. E assim vai ser quando agosto acabar. Já sinto o cheiro dos velhos jasmins esquecidos..

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

'... ser é ousar ser.'

quinta-feira, 25 de junho de 2009

(tudo isso em silêncio)

O coração pulsa na ponta dos meus dedos num constante estado de amorpulsante. Ele bate um tumtumtum descompassado por querer descompassar, como se dissesse que precisa ser ouvido. É, meu coração tem a mania de berrar nas linhas quando ele dói, quando o frio chega, quando ele quase morre. Mas também transborda por essas linhas quando a respiração não dá conta dos suspiros incontáveis de dias em que um abraço faz um sorriso abrir na cara e que um gesto nosso é como que necessidade também de nossos corações, que pulsam novamente com o ar renovado e se faz notar criando então rabiscos azuis que passeiam por entre flores e chegam até você na forma de palavras doces infinitas.

Ah, coração. Sou feito dele da cabeça aos pés. E, se não fosse, sei lá o que seria das palavras e de todo o resto..

sábado, 20 de junho de 2009

Um vento novo ventando em silêncio

Eu me equilibro em viadutos, eu e meus amigos loucos, bêbados, escritores sem livro, músicos sem disco, cineastas sem nenhum final feliz, dialogando por citações, encenando por entre as ruas, trocando os dias pela noite e as noites por coisa alguma.

Temos esperança.
Mesmo que ter esperança seja acreditar no café preto frio e no pão com manteiga de ontem, a vida tem dessas coisas.

É, eu e meus encantamentos e ideais românticos juvenis.
Eu que já rasguei tantas idéias antes mesmo de terminar de levá-las ao papel.

Eu e essas tais pretensões de me sacrificar: escrever, concluo, é então renunciar, não se deter por nada, nada, não respeitar nada, os que tiverem nojo, fracassam, é preciso – fundamental - ter pulso, ter estômago, como se na literatura tu tivesse que renunciar a todos os caminhos.

Eu assombrado por uma constante sensação de que talvez tenha me perdido por aí e me achado tantas vezes, de não me lembrar quais foram as escolhas ou quais foram os caminhos..

Eu, que sinto um vento novo ventando.

Eu, André Luiz, composto, acalentando o sentimento de que algo novo se anuncia, algo que leio nas entrelinhas e que me faz sorrir.......

Eu que sentado no escuro em meio a fumaça misturada de tabaco, café e jasmim, escuto teu silêncio e sorrio ao ouvi-la cantar no mesmo tom que o meu numa ligação sem explicação. que não precisa ter explicação.

Só resta suspirar (mos).

sexta-feira, 12 de junho de 2009

in-finito, amor.

De repente tu se volta pra mim e posso ouvir o som úmido de tuas pálpebras se abrindo e se abrindo e se abrindo infinitamente e depois se fechando sem fim. Não me diz uma palavra mas vou escutando tuas frases antigas e despindo você de tuas máscaras severamente impostas pra si. Sabes que não pode se esconder de mim e sabe que não a conheço e você sabe que não me conhece mas tu sabes acima de todos os outros vocêsabes que você nunca vai chegar a saber o que é que foi que a uniu a mim nessa não-sólida-união, nessa não-solidão. Que tipo de descaso a traz mais perto, mais, mais perto, até que o grau maior de maispertos seja o adeus ? Que tipo de não-ódio é esse não-amor?

Essa cronologia que é tão difícil de quebrar me suprime. Traço cada um dos nossos passos juntosdispersos. Fico daqui, do fundo escuro do meu quarto apagado e inerte, me perguntando onde está aquela cuja face tocou a minha face antes que qualquer outra face tocasse a minha face dual, a minha dupla-face, as minhas duas caras de personagem que se inventa por não se saber existindo. Sei que hoje é adeus e que hoje é depois do adeus nesse anacronismo que eu me dou de presente. E volto, e paro, e caminho, e faço que aproveito as oportunidades que o DestinoVocê me deram e deixei passar entre meus dedos famintos de enlaçar dedos teus e minhas-tuas-mãos. Preciso fechar os olhos e absorver o pouco que me resta da tua voz na minha lembrança. E me transporto gritando. O que você quer? O pouco que sobrou da carne decepada da minha alegria não seria suficiente para alimentar a infelicidade que reside nos meus dias mortos em lágrima silábica que já vislumbro. É agora e é depois e é antes de agora e é; E eu sei exatamente o que a trouxe aqui. É a necessidade de descarregar das costas esse peso fardo carga indesejável e indesejada que você se impôs carregar. E eu sei exatamente que palavras quer me dizer. E eu sei exatamente que meu grito de amor ficou preso nessa garganta doentecovardemuda e que essa é a última chance, última - palavra macabra, marcada / e o euteamo que nunca saiu, eu sei, eu sei exatamente, em tantas oportunidades anteriores de que eu me lembro com exatidão, não vai sair uma primerúltimavez. Quero dizer, você me aperta e me pergunta o que foi e prende as palavras em cheio na boca grávida de silêncios e ávida de seus-meus-lábios. Quero dizer: nada senti sem ti; tu não deixa. Faz frio. Eu sei exatamente que eu preciso desse abraço e que eu sinto frio o tempo todo e eu sei exatamente que o mundo é uma merda bem possivelmente literária e mutável e que a falta de minha antiga ingenuidade que me absorvia na expectativa expectadora da mudança, essa tão imensa e insubstituível falta faz frio. Faz frio dentro de mim. Caio de olhos fechados na quentura do seu amperplexo e o frio não passa porque absorvo esse ar gelado que vem de ti. E eu sei exatamente que tremor é esse nas suas mãos de último-toque. Você não nega porque não tenho coragem de perguntar, mas eu sei, eu sempre soube exatamente.

Uma última vez é inevitável quando alguém começa a parecer inevitável.

O último abraço teve toda a força que não estava no primeiro abraço, aquele de quando éramos atores no palco de uma antiga peça conhecida - essa força é a tristeza do fim ou a alegria da dispersão?

Finjo não conhecer os seus motivos e cravo sozinho meus pensamentos nos braços. Faz frio dentro de mim. Me abraça forte e treme comigo. Eu também sei tremer. Também sei cravar minha marca nalmalheia, mas marca finita, você sabe - tua marca é diferente, eterna, dói. Sem fim. Dói.

Escandalizo perdidamente por aí e sílabas daquele dia escorrem pela calha dos telhados na chuva. E vou dissimulando minha certeza de nunca mais voltar a enxergar com olhos calmos e vou alcançando nesse abraço-despedida-recomeço-descarrego-desse-peso um caminho sem volta.

Profanaram o santuário do nosso primeiro e último encontro. Mudaram a cor das casas e o lugar das luminárias, tomaram conta da minha lembrança e eu já não tenho mais onde sentar e cismar teu cheiro que persistiu pelas ruas até que alguém levou embora teu cheiro e o último apelo de mim. Sim, nada disso agora. É um futuro remoto-inimaginável, porque ainda chove como nem sempre chove e faz frio dentro de mim como eternamente e a parede ainda é azul e a luz é branca e o cheiro ainda é o de patchouli.

Olha pra mim depois de tanto tempo. Se aproxima. Sinto. Havia muito tempo que eu não sentia e eu sinto. É passado de agora, é agora de antes. Nem você acredita na sua palavra, nem eu. E me toca e premedita as palavras da carta que vai me enviar pedindo desculpas por não sentir.

Tudo bem, eu sei que tá tudo bem. Vou escorrer lembranças até que sejam só mais atos passados de um tempo que meus transtornos me invocam a gritar pra não retornar mais aqui.

Eu vou ficar quando você caminhar decidida ao horizonte noturno do nãovoumaisvoltaraqui,finitoamor. Ficarei.

Deixa eu te observar de olhos fechados agora, não me olha. Entendo que é de praxe esse seu olhar cerrado sem o sentimento que tento imaginar na sua expressão de nãoseiquesentido. E já começou a devastação dos meus dias mortos em lágrima silábica do nome que vou repetir te chamando sem volta: nome de mantra, nome de anjo, nome de rei, guerreiro, amante, abrigo, sono, fel. Você quer, sei, e não permito, me devolver esse fardo que traz consigo pesando as costas nesses anos de me conhecer. Mas eu não me quero de volta. Me leva contigo. Leva embora essa metade de mim, por favor. Assim sem adeus definido; assim, vendo você cruzar a esquina na chuva escura da noite de céu roxo e trovões vários; assim imaginando que vou vê-la retornar por esse caminho que você faz indo embora eterna.

Você vai. E eu vou ficar esperando pelo que não chega, chamando pelo que não volta e nisso vivo, não vou deixar de viver essa dor fria. Nem se eu quebrasse o meu espelho e ele sangrasse no meu lugar.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Sexta-feira de um fim de agosto

Um ônibus escuro, entro, repito: que seja doce. 21 anos, poltrona número 21, do meu lado dorme a imensidão das paisagens intocadas. No céu, júpiter brilhando pertinho de saturno e, logo ao lado, uma lua que nunca havia visto antes, amarela, amarela, amarela, um sorriso profundo a me vigiar distante. Tirei os olhos dela ainda sem conseguir parar de pensar nela, como se ela me dissesse que talvez tu também a olhasse naquele momento e que pensava nas mesmas coisas.


No bolso esquerdo, uma saudade, no direito, coragem.

A lua iluminava minha antologia poética de Carlos Drummond, o anjo torto que me dizia:


Vai André! Ser Gauche na vida..


O ônibus faz a parada: plataforma 7. Desço sorrindo, olho pro céu, a lua não está mais lá. Continuo olhando pro céu e em segredo eu sei que ela ainda está lá, em algum lugar. Uma estrela cadente passa queimando o céu.

O resto não importa, nem a origem nem o destino.


No fundo, estamos sempre indo e vindo: O resto é nada.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Para pessoas raras

Ela guardava o hábito lascivo de apertar os amores entre as pernas, como se pretendesse esmagá-los sobre o próprio ventre. Gostava das marcas e da expressão "roxa de paixão". Gostava de desenhar contornos com a língua e de provocações ao pé do ouvido. Gostava de sentir o peso e fazia sexo de olhos abertos; tinha prazer em observar. Expressões, movimentos, pupilas dilatadas, pelos eriçados, contornos. O antes, o durante, o depois. Sorria. Naquela noite, deteve-se no depois. Fingiu dormir e, quando sentiu sobre o peito a outra respiração do terceiro sono, levantou. Sentada ao pé da cama com as pernas cruzadas como a de uma menina de tranças, acendeu um dos cigarros franceses que ele lhe trouxera de presente e observou. Observou com um cuidado cirúrgico cada milímetro de pele exposta sob a luz do abajur que ela tanto gostava. Guardou com cuidado o desenho das costas e o tamanho das mãos. Quis fotografá-lo; indefeso, belo. Como o achava belo. Sabia, de algum jeito, que jamais acharia alguém assim tão belo. Nem sob a luz daquele abajur, que ela adorava tanto, nem sob qualquer outra luz. Com a Polaroid dele e o cigarro pendurado na boca, imitando para sim mesma uma daquelas atrizes francesas dos filmes que ele tanto admirava, fotografou. A foto que seria para sempre, enquanto ela se lembrasse, a foto mais bonita que havia feito na vida. Estava séria. Vestiu-se, com o cigarro francês, que era o presente, ainda pendurado, e escreveu na parede, com aquele lápis vermelho de marcenaria:

"Querido, se você quer uma mulher capaz de fugir com você em um fusca verde para qualquer lugar no mundo com uma mochila e um mapa e que ouça billie holiday enquanto cozinha; se você quer uma mulher que escreva cartas de amor, que tire fotos de amor, que rasgue roupas de amor, que chore e grite de amor e que viva de amor; se você quer uma mulher que não tem noção de quanto e que por isso não tem restrições sobre quando ou onde; se você quer uma mulher que sangra, que cheira, que morde, que explode, que aguenta; se você quer uma mulher com força o bastante, vontade o bastante, coragem o bastante, imaginação o bastante, loucura o bastante, doçura o bastante, atrevimento o bastante, saliva o bastante e poesia demais; querido, se você quer uma mulher capaz de fugir, pra qualquer lugar no mundo, sozinha, num fusca verde, com uma mala, uma foto e um mapa, querido, meu querido, você vai ter que me conquistar primeiro."


Apagou o cigarro, o abajur. Sorria e nem sabia.

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