(tudo isso em silêncio)
Ah, coração. Sou feito dele da cabeça aos pés. E, se não fosse, sei lá o que seria das palavras e de todo o resto..
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Um vento novo ventando em silêncio
Temos esperança.
Mesmo que ter esperança seja acreditar no café preto frio e no pão com manteiga de ontem, a vida tem dessas coisas.
É, eu e meus encantamentos e ideais românticos juvenis.
Eu que já rasguei tantas idéias antes mesmo de terminar de levá-las ao papel.
Eu e essas tais pretensões de me sacrificar: escrever, concluo, é então renunciar, não se deter por nada, nada, não respeitar nada, os que tiverem nojo, fracassam, é preciso – fundamental - ter pulso, ter estômago, como se na literatura tu tivesse que renunciar a todos os caminhos.
Eu assombrado por uma constante sensação de que talvez tenha me perdido por aí e me achado tantas vezes, de não me lembrar quais foram as escolhas ou quais foram os caminhos..
Eu, que sinto um vento novo ventando.
Eu, André Luiz, composto, acalentando o sentimento de que algo novo se anuncia, algo que leio nas entrelinhas e que me faz sorrir.......
Eu que sentado no escuro em meio a fumaça misturada de tabaco, café e jasmim, escuto teu silêncio e sorrio ao ouvi-la cantar no mesmo tom que o meu numa ligação sem explicação. que não precisa ter explicação.
Só resta suspirar (mos).
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in-finito, amor.
Essa cronologia que é tão difícil de quebrar me suprime. Traço cada um dos nossos passos juntosdispersos. Fico daqui, do fundo escuro do meu quarto apagado e inerte, me perguntando onde está aquela cuja face tocou a minha face antes que qualquer outra face tocasse a minha face dual, a minha dupla-face, as minhas duas caras de personagem que se inventa por não se saber existindo. Sei que hoje é adeus e que hoje é depois do adeus nesse anacronismo que eu me dou de presente. E volto, e paro, e caminho, e faço que aproveito as oportunidades que o DestinoVocê me deram e deixei passar entre meus dedos famintos de enlaçar dedos teus e minhas-tuas-mãos. Preciso fechar os olhos e absorver o pouco que me resta da tua voz na minha lembrança. E me transporto gritando. O que você quer? O pouco que sobrou da carne decepada da minha alegria não seria suficiente para alimentar a infelicidade que reside nos meus dias mortos em lágrima silábica que já vislumbro. É agora e é depois e é antes de agora e é; E eu sei exatamente o que a trouxe aqui. É a necessidade de descarregar das costas esse peso fardo carga indesejável e indesejada que você se impôs carregar. E eu sei exatamente que palavras quer me dizer. E eu sei exatamente que meu grito de amor ficou preso nessa garganta doentecovardemuda e que essa é a última chance, última - palavra macabra, marcada / e o euteamo que nunca saiu, eu sei, eu sei exatamente, em tantas oportunidades anteriores de que eu me lembro com exatidão, não vai sair uma primerúltimavez. Quero dizer, você me aperta e me pergunta o que foi e prende as palavras em cheio na boca grávida de silêncios e ávida de seus-meus-lábios. Quero dizer: nada senti sem ti; tu não deixa. Faz frio. Eu sei exatamente que eu preciso desse abraço e que eu sinto frio o tempo todo e eu sei exatamente que o mundo é uma merda bem possivelmente literária e mutável e que a falta de minha antiga ingenuidade que me absorvia na expectativa expectadora da mudança, essa tão imensa e insubstituível falta faz frio. Faz frio dentro de mim. Caio de olhos fechados na quentura do seu amperplexo e o frio não passa porque absorvo esse ar gelado que vem de ti. E eu sei exatamente que tremor é esse nas suas mãos de último-toque. Você não nega porque não tenho coragem de perguntar, mas eu sei, eu sempre soube exatamente.
Uma última vez é inevitável quando alguém começa a parecer inevitável.
O último abraço teve toda a força que não estava no primeiro abraço, aquele de quando éramos atores no palco de uma antiga peça conhecida - essa força é a tristeza do fim ou a alegria da dispersão?
Finjo não conhecer os seus motivos e cravo sozinho meus pensamentos nos braços. Faz frio dentro de mim. Me abraça forte e treme comigo. Eu também sei tremer. Também sei cravar minha marca nalmalheia, mas marca finita, você sabe - tua marca é diferente, eterna, dói. Sem fim. Dói.
Escandalizo perdidamente por aí e sílabas daquele dia escorrem pela calha dos telhados na chuva. E vou dissimulando minha certeza de nunca mais voltar a enxergar com olhos calmos e vou alcançando nesse abraço-despedida-recomeço-descarrego-desse-peso um caminho sem volta.
Profanaram o santuário do nosso primeiro e último encontro. Mudaram a cor das casas e o lugar das luminárias, tomaram conta da minha lembrança e eu já não tenho mais onde sentar e cismar teu cheiro que persistiu pelas ruas até que alguém levou embora teu cheiro e o último apelo de mim. Sim, nada disso agora. É um futuro remoto-inimaginável, porque ainda chove como nem sempre chove e faz frio dentro de mim como eternamente e a parede ainda é azul e a luz é branca e o cheiro ainda é o de patchouli.
Olha pra mim depois de tanto tempo. Se aproxima. Sinto. Havia muito tempo que eu não sentia e eu sinto. É passado de agora, é agora de antes. Nem você acredita na sua palavra, nem eu. E me toca e premedita as palavras da carta que vai me enviar pedindo desculpas por não sentir.
Tudo bem, eu sei que tá tudo bem. Vou escorrer lembranças até que sejam só mais atos passados de um tempo que meus transtornos me invocam a gritar pra não retornar mais aqui.
Eu vou ficar quando você caminhar decidida ao horizonte noturno do nãovoumaisvoltaraqui,finitoamor. Ficarei.
Deixa eu te observar de olhos fechados agora, não me olha. Entendo que é de praxe esse seu olhar cerrado sem o sentimento que tento imaginar na sua expressão de nãoseiquesentido. E já começou a devastação dos meus dias mortos em lágrima silábica do nome que vou repetir te chamando sem volta: nome de mantra, nome de anjo, nome de rei, guerreiro, amante, abrigo, sono, fel. Você quer, sei, e não permito, me devolver esse fardo que traz consigo pesando as costas nesses anos de me conhecer. Mas eu não me quero de volta. Me leva contigo. Leva embora essa metade de mim, por favor. Assim sem adeus definido; assim, vendo você cruzar a esquina na chuva escura da noite de céu roxo e trovões vários; assim imaginando que vou vê-la retornar por esse caminho que você faz indo embora eterna.
Você vai. E eu vou ficar esperando pelo que não chega, chamando pelo que não volta e nisso vivo, não vou deixar de viver essa dor fria. Nem se eu quebrasse o meu espelho e ele sangrasse no meu lugar.
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Sexta-feira de um fim de agosto
Um ônibus escuro, entro, repito: que seja doce. 21 anos, poltrona número 21, do meu lado dorme a imensidão das paisagens intocadas. No céu, júpiter brilhando pertinho de saturno e, logo ao lado, uma lua que nunca havia visto antes, amarela, amarela, amarela, um sorriso profundo a me vigiar distante. Tirei os olhos dela ainda sem conseguir parar de pensar nela, como se ela me dissesse que talvez tu também a olhasse naquele momento e que pensava nas mesmas coisas.
No bolso esquerdo, uma saudade, no direito, coragem.
A lua iluminava minha antologia poética de Carlos Drummond, o anjo torto que me dizia:
Vai André! Ser Gauche na vida..
O ônibus faz a parada: plataforma 7. Desço sorrindo, olho pro céu, a lua não está mais lá. Continuo olhando pro céu e em segredo eu sei que ela ainda está lá, em algum lugar. Uma estrela cadente passa queimando o céu.
O resto não importa, nem a origem nem o destino.
No fundo, estamos sempre indo e vindo: O resto é nada.
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No ônibus
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